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Degustação |
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A ARCA DE NOÉ é uma das 96 crônicas bem humoradas que formam esse livro. Veja duas delas a título de degustação. |
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- O VÍCIO DA PINHA
Dizem que um dos fatores condicionantes para que o cigarro seja um vício tão poderoso é a repetição do gesto de levar o cigarro a boca, sugar a fumaça e todos os mecanismos envolvidos no ato de fumar. Se você faz isso 20 vezes em cada cigarro e fuma 20 cigarros por dia, o que equivale a uma carteira completa, estará repetindo esse mecanismo 400 vezes todos os dias. Deve ser a coisa que o fumante mais faz na vida, depois de respirar. Esse gesto, repetido assim tão exaustivamente, contribui para fortalecer o vício e a dependência, mais do que a nicotina e outras substancias, dizem alguns especialistas. Fiquei preocupado quando li sobre isso porque eu sou um consumidor de pinhas. Pinha, vocês sabem, e se não souberem vão ficar sabendo aqui e agora, é aquela fruta chamada também de fruta do conde ou ainda de ata. É também a fruta do pinheiro mas essa já é outra pinha e é melhor é não atrapalhar.
Uma pinha é cheia de caroços que não são comestíveis. São aproximadamente 60 caroços por fruta, pelo menos foi o que eu contei na última que comi. Para comer uma pinha, então, você precisa repetir umas 60 vezes o gesto de cuspir fora o caroço. Comer pinha é uma coisa complicada. Você bota alguns bagos na boca, provoca uma sucção com a cavidade bucal, usa língua e dentes para desprender a polpa dos caroços com uma avançada técnica parecida com mastigação mas sem morder os caroços e depois os expele, um por um. Isso significa que quem come uma pinha por dia repete 60 vezes o gesto de cuspir o caroço. Não é uma repetição tão intensa como o gesto de tragar mas de qualquer forma é respeitável. E deve ser viciante do mesmo jeito, criar dependência psicológica e obrigar o viciado em pinhas a ficar repetindo o gesto em momentos inoportunos.
Outro dia estava na casa de um amigo e de repente cuspi no chão. Ele olhou para mim espantado e eu expliquei encabulado com uma só palavra:”pinha”. Ele compreendeu perfeitamente. Sorriu discretamente, fez um ar de concordância e simplesmente balançou a cabeça sem nenhuma palavra. Estava esclarecida e compreendida a situação. O meu amigo era também viciado em pinha e apercebia-se de que meu ato não era uma demonstração de deseducação grosseira e sim um movimento instintivo de quem é viciado em pinha. É fácil compreender isso. Quem come uma pinha por dia, no final da semana terá cuspido 420 caroços. Ao final de um ano terão sido 21.900 repetições do gesto de jogar o caroço fora. É o bastante para a pessoa já fazer isso instintivamente, de uma maneira compulsiva. Só perde para o cigarro. Isso para o modesto consumidor de uma pinha diária. Não é o meu caso. Estou escrevendo isso depois de haver devorado 4 pinhas seguidas, maravilhosamente maduras e geladinhas. Uma delícia. Provavelmente, 240 caroços.
Há quem se poupe desse trabalho, trocando-o por outro muito maior. Gente maluca. Natália, minha filha menor pega garfo e faca, separa toda a polpa dos caroços e só depois começa a comer. Meio ridículo e exasperador, certamente. Acho que se a turma da escola souber disso vai tirar onda com a cara dela. Minha filha gosta de pinha mas não come muito porque diz que da muito trabalho. Deve dar mesmo. Eu prefiro o gesto de cuspir os caroços, mesmo que isso me leve a situações de constrangimento. Se você me chamar em sua casa e de repente eu cuspir no seu tapete, por favor me desculpe. É um ato instintivo, tornado assim por conta da repetição. São décadas e mais décadas - meu Deus, quantas! – comendo pinhas e fortalecendo o vício com o repetir, repetir, repetir do gesto.
Cada caroço da pinha tem um nome próprio. Não significa que se chamem João, Júlia, Pedro ou Luiz Inácio Lula da Silva. Seria complicado se livrar dos caroços se fosse assim. Faz tempo que tento me livrar de Luiz Inácio Lula da Silva e não consigo. Todos os caroços de uma pinha tem o mesmo nome. São chamados de pinhões. O nome me parece inadequado porque pinhão parece maior do que pinha e ficam cabendo 60 pinhões e mais algumas coisas dentro de uma única pinha. Ou ata, se preferirem. Soa assim como uma irracionalidade matemática. Como a matemática lida com conceitos como o infinito também fica me parecendo que a própria matemática não é assim uma coisa tão racional. E estou misturando as pinhas. Espero que ninguém me processe por isso mas se por acaso eu for preso, por favor, levem-me pinhas ao invés de cigarros.
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- CARTA ABERTA A UM LADRÃO
Tem um cidadão por aí que roubou e está usando o meu cartão de crédito. Todos eles. Tem feito uso também do meu talão de cheques e talvez esteja espantado de até hoje, transcorridos
quase sessenta dias, os cheques continuarem sendo pagos pelo banco e os cartões ainda serem normalmente aceitos nas lojas. Devo a esse ladrão um esclarecimento, pois o normal era os cartões já terem sido cancelados, assim como o resto do talão de cheques. Nada disso vai ser feito.
Ocorre que você, caro ladrão, tem sido mais parcimonioso do que eu nos seus gastos, de modo que esse roubo está saindo muito econômico para mim. Você comprou uma camisa no supermercado. Custou R$ 32,00 e isso demonstra que não é um esbanjador. Fosse eu, provavelmente compraria numa loja qualquer no shopping e duas ou três camisas de uma só empreitada. Você pagou um almoço em um restaurante chamado Rei dos Grelhados. Nem sei onde fica. Comida barata. Espero que tenha sido um almoço compensador para você pois para mim foi demais. Se estivesse com o meu cartão, teria ido ao Spettus e gasto uma nota preta. Provavelmente chamaria meus filhos ou um amigo e a conta sairia pelo menos umas seis vezes o preço da sua pequena refeição. Desse modo, tenho economizado muito por sua causa e devo-lhe agradecimentos por isso.
Você tem se mostrado extremamente ponderado no uso do talão de cheques também. O único gasto um pouquinho maior foi a conta da oficina, mas justifica-se. Realmente oficina hoje em dia é sempre muito caro. Qualquer bobagem é uma fortuna. Pelo valor do cheque, o de número 672112, é até possível que você tenha batido no seu carro. Espero sinceramente que não tenha se machucado. De qualquer forma, exceto por essa conta da oficina, todos os outros gastos demonstram muito zelo pelo patrimônio alheio, no caso, o meu patrimônio. Foi uma sorte minha ter sido roubado por você. Poderia ter sido roubado por um ladrão gastador e nem sei o que faria nesse caso. Como você tem sido comedido em seus gastos, liberei o banco para entregar outro talão de cheques ao receber a requisição existente nesse. Faço isso para que não lhe falte nada mas quero fazer um acordo com você. Prefiro botar o seu carro dentro do meu seguro, porque não agüento outra conta de oficina daquela. Por favor, remeta os dados para que eu tome as devidas providencias.
Outra conta que me preocupa são as despesas médicas. Tenho notado que já é o segundo cheque para pagamento de consulta. Isso significa que você não tem nenhum convênio saúde e está doente. Enquanto forem consultas, tudo bem, mas o que acontecerá caso você precise de uma hospitalização? Melhor colocar você como dependente do meu plano de saúde. Não só você, naturalmente, mas toda a sua família, até porque percebi que um dos médicos consultados é um pediatra. Amigo meu, por sinal. Ótimo médico, só que um pouco careiro. Eu nem sabia disso mas agora sei.
Fazendo todas as contas, do que eu teria gasto contra o que você de fato gastou, percebo que estou fazendo uma enorme economia, graças a sua ajuda. Devo portanto agradecer. Alem de tudo, sinto que dessa forma estou contribuindo para uma melhor distribuição de renda, pois apesar de ter cartão de crédito por tanto tempo, em nenhuma ocasião dei um pouco de lucro ao Rei dos Grelhados ou a esse médico amigo meu. Tenho sempre, e egoisticamente, ido aos mesmos lugares e procurado quase sempre lugares caros. Agradeço portanto pela economia. Agora mesmo, meu filho veio pedir-me para comprar uma placa nova para o seu computador e minha filha queria um sapato para combinar com uma roupa que também precisava comprar. Expliquei a ambos que estava sem nenhum cartão de crédito e sem nenhum talão de cheques, pois tudo havia sido roubado.
-Mas pai, isso já faz dois meses.
-Eu sei filha, mas ta tão bom assim!!!
Se você continuar dessa forma, caro ladrão, estaremos ambos satisfeitos e sinto que estou tendo uma real oportunidade de criar um sólido patrimônio.
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